Penso sobre quantas vezes adiamos nossos desejos por nos colocarmos em uma eterna preparação para alguma coisa. Nunca estudamos o suficiente, nunca trabalhamos o suficiente, nunca fizemos algo o suficiente para que tenhamos a coragem de dar o próximo passo.

Na clínica, nos deparamos com pessoas que, apesar do desejo, adiam e sentem-se angustiadas por fazerem do presente uma sala de espera, como se a vida pudesse começar depois de alguma coisa: depois de estarem mais preparadas, mais seguras, mais certas, mais capazes. E isso não é necessariamente sobre não fazer nada, há quem faça muito e, ainda assim, permaneça esperando a condição ideal para se autorizar a desejar, escolher, agir.

Ao adiarmos algo, onde nós estamos escolhendo ficar? E o que a gente tanto teme de encontrar lá fora?

Talvez exista algo de sedutor na preparação interminável. Enquanto ainda não decidimos, não precisamos lidar inteiramente com as consequências de uma escolha. Enquanto ainda estamos nos preparando, ainda podemos imaginar que, quando finalmente estivermos prontos, saberemos exatamente o que fazer, estaremos seguros e não haverá espaço para o erro.

Mas não existe garantia. Quando a gente escolhe, a gente perde. Todo caminho escolhido implica em abri mão dos outros. E talvez seja justamente isso que torne uma escolha tão difícil: escolher não é apenas ganhar uma possibilidade, mas também consentir com a perda das possibilidades que não serão vividas.

Enquanto nos preparamos e nos deparamos com uma lista infinita de coisas que ainda precisamos fazer para, finalmente, poder ser ou fazer alguma coisa, uma vida passa.

pexels-guilman-2204305-5939399
pexels-guilman

Existe uma diferença entre se preparar para algo e fazer da preparação uma condição para viver.

Talvez a questão não seja deixar de se preparar. Há preparações necessárias, desejos que precisam de tempo, escolhas que pedem elaboração. A questão é quando a preparação deixa de ser um caminho e passa a funcionar como uma espécie de adiamento permanente. Quando o “ainda não” se torna uma maneira de não precisar se haver com o “agora”.

Talvez o que nos assuste seja descobrir que o mundo começa onde termina a garantia.

Não é possível ter uma mala pronta para todo e qualquer imprevisto antes de encarar uma viagem. Há coisas que precisa ser colocadas pelo caminho; outras serão remendadas; muitas, talvez, serão perdidas. Algumas sequer saberemos que precisávamos levar até que a viagem comece.

Esperar estar completamente preparado pode parecer uma forma de proteção contra as perdas. Mas há uma perda que também acontece enquanto esperamos: a do tempo que não retorna, das experiências que não acontecem, das escolhas que permanecem apenas como possibilidade.

Talvez não seja preciso estar com as malas prontas para partir.
Talvez algumas coisas só possam ser encontradas depois que a viagem começa.

E, enquanto esperamos a condição ideal para viver, talvez seja importante nos perguntar: que vida é essa que já está sendo perdida?