O resto não como aquilo que fracassou ou foi descartado, mas como aquilo que permanece e pode ganhar outra função, outro sentido.

Há algum tempo, enquanto eu assistia a uma palestra da Conceição Evaristo, ouvi uma reflexão trazida por ela sobre o valor do resto que me fez pensar sobre esse lugar e sobre o efeito dessa pergunta: “quantas vezes o resto tem valor de totalidade?”

Isso me fez pensar sobre o que podemos e conseguimos fazer a partir daquilo que fica. De tudo o que vai acontecendo no meio do caminho, alguma coisa permanece, algo sempre sobra. Na análise isso também acontece. Ainda que a gente atravesse anos de análise, que a gente fale, que a gente dê voltas e que, em algum momento, possamos sair da sombra, ao final de uma análise algo resta desse encontro. E o que estamos fazendo com essas sobras? O que temos construído com elas?

Às vezes, acreditamos na ideia de que algo só é possível se voltarmos para um ponto inicial, como se fosse necessário começar do zero. Mas talvez o que temos feito seja justamente dar continuidade às coisas que foram restando daquilo que vivemos, talvez isso seja o que é possível. Se a vida não volta para um lugar que marca o início, a gente faz algo com aquilo que permanece.

Ao longo de uma vida, muitas coisas se quebram; outras perdem o sentido; laços são rompidos. E seguimos carregando as sobras, atribuindo valor a cada coisa e transformando-as naquilo que conseguimos. Há algo de artesanal neste trabalho: recolher o que restou, escolher o que ainda pode servir, juntar pedaços, experimentar formas e, pouco a pouco, construir alguma coisa com aquilo que temos nas mãos.

Diante da vida, do que deixa de ser e do que permanece, quantas vezes o resto tem valor de totalidade? Como temos olhado para aquilo que nos sobra? E até onde podemos fazer algo delas?

De cada encontro, de cada vivência, de cada espaço ocupado, algo sempre fica. O que sobra, o que fica, não é necessariamente aquilo que jogamos fora, pode ser o que usamos para construir novos chãos e pilares para nos acomodar.

E é por isso que, como nos diz Guimarães Rosa, viver é rasgar-se e remendar-se. Talvez a arte da vida seja essa: quebrar-se em alguns momentos e ter a capacidade de fazer algo com os cacos que ficam. Não para devolvê-los ao lugar e fazer com que sejam novamente aquilo que eram antes, porque isso seria impossível, mas para seguir construindo algo de novo com aquilo que foi possível fazer dali.