Gosto de pensar a análise como um lugar de nascimento, onde a cada encontro podemos fazer nascer novas formas de dizer de nós e segui nos reinventando a partir da nossa própria história. É um lugar que nos traz a possibilidade de inaugurarmos palavras diante do mundo e de encontrarmos um ritmo próprio para dizê-las.

A análise nos convida a contar e recontar a nossa história quantas vezes forem necessárias, repetindo as mesmas cenas, costurando linhas e palavras. É justamente nessa repetição, no contar-se de si diversas vezes e de diversas formas que abrimos espaço para o inesperado, para aquilo que ainda não havia encontrado lugar.

Elena Ferrante traz no seu livro Um amor incômodo que falar é encadear tempos perdidos, penso a análise como esse lugar onde costuramos tempos a partir de uma linha condutora que nos constitui. Ao falar, entramos em contato com os rastros que ficaram de uma história. Quando passado, presente e futuro se encontram em uma narrativa, memórias ganham contornos e novos enredos surg. Somos feitos de palavras, de histórias e de lembranças e ao encontrarmos novas formas de dizê-las, podemos também encontrar novas maneiras de existir.

Em o poeta e o fantasiar (1908), Freud aproxima o brincar infantil da criação poética. Ele escreve:

Se pelo menos pudéssemos encontrar em nós mesmos, ou entre os nossos próximos, uma atividade de algum modo semelhante à do poeta. A atividade que mais agrada e a mais intensa das crianças é o brincar. Talvez devêssemos dizer: toda criança brincando se comporta como um poeta, na medida em que ela cria seu próprio mundo, melhor dizendo, transpõe as coisas do seu mundo para uma nova ordem, que lhe agrada. Seria então injusto pensar que a criança não leva a sério esse mundo; ao contrário, ela leva muito a sério suas brincadeiras, mobilizando para isso grande quantidade de afeto.

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Acho bonito que Freud nos convide a olhar para o brincar como um gesto de criação, onde a criança atribui novos sentidos ao que vive. Talvez seja justamente isso que de alguma forma também acontece em uma análise, não voltamos ao passado para modificá-lo, mas para fazer algo de diferente daquilo que já temos. Ali a gente volta, conta, olha para os cantos danificados, cria, aposta, recua e segue mais uma vez.

Cada um nasce de uma história que começou antes - Calligaris.

Antes de habitarmos o mundo fisicamente, já existimos para alguém. Somos contados, imaginados, sonhados, desejados ou não por outras pessoas. Antes do primeiro choro, já ocupamos um lugar nas histórias de família, nos medos, nas expectativas ou até nos silêncios que atravessam uma geração. Chegamos ao mundo herdando uma língua que não escolhemos e um nome que nos antecede, carregamos desejos, lembranças e significados que nem sempre conhecemos.

E apesar de não começarmos a nossa história, somos nós quem damos continuidade a ela e vamos fazendo algo disso que herdamos, nos apropriamos de algumas tramas, recusamos outras, criamos maneiras próprias de dizer de e de estar no mundo. Entre aquilo que recebemos e aquilo que construímos, vamos fazendo nossas escolhas e nossos desvios. Esse é um dos movimentos da vida, transformar uma história que nos foi contada em algo que possa ser narrad por nós. A análise chega para oferecer espaço, não para apagar ou reescrever vivências, mas de tornar possível produzir novos sentidos para aquilo que foi vivido.

Em uma análise às vezes há quem chegue sem saber por onde começar, como se não houvesse uma linha condutora, mas quando enunciamos uma palavra, já damos início a uma trama que traz um presente entrelaçado a um passado e a um futuro. Quando falamos, costuramos memórias, tempos, histórias que antes pareciam soltos, descobrimos que uma mesma história pode ser contada de outras maneiras e de outros lugares. Por isso, a análise é também esse lugar de nascimento, de parir-se, de colocar-se no mundo.