Também somos feitos dos rastros que ficam das nossas relações.

Uma das coisas que mais me chamam a atenção na escrita de Elena Ferrante é sua forma não pacífica de nos contar uma história. Por não amenizar, ela nos traz o excesso, e somos inundados por suas palavras, quase como se não houvesse uma borda, uma margem; como se suas tramas fossem excedendo as linhas de um texto e nos colocassem diante da vulnerabilidade dos personagens. É como se, em alguns momentos, rompêssemos uma barreira entre o leitor e a obra e invadíssemos a parte mais íntima daquela história.

Quando escolhi ter esse espaço de escrita, eu sabia que teria muito de Elena Ferrante por aqui, não apenas por ser uma das minhas escritoras favoritas, mas por ficar intrigada com os enredos de personagens que são tão reais, tão presentes, tão próximos de nós.

Dias de abandono começa com o relato de Olga sobre o fim de seu casamento. Logo nas primeiras páginas, ela nos diz: “em uma tarde de abril, logo após o almoço, meu marido me comunicou que iria me deixar”. E assim, Olga, uma mulher de 38 anos, começa a nos contar sua história.

No início, desacreditada, ela pensa que o marido poderia estar reagindo de forma excessiva ao normal descontentamento da vida. Nada parecia estar mal naquela relação aos seus olhos, então não havia motivos aparentes para aquele pedido. Mas com o passar do tempo, se dá conta de que Mário não voltará atrás e, a partir dali, ela teria de lidar com tantas coisas que estavam por vir.

Após o fim repentino de seu casamento, Olga precisa reconhecer a si mesma depois dessa perda. Afinal, perder um casamento, colocar um ponto final em uma relação também significa perder um pouco ou muito de si. Quem era essa mulher além do casamento? O que resta de uma pessoa após o término de uma relação? O que se perde e o que fica? Os questionamentos, as dúvidas e os medos são diversos.

Elena Ferrante nos faz mergulhar na história de uma mulher que está à beira de um colapso, que se encontra à margem e em meio a angústia e ao desamparo. Olga tem de lidar com o sentimento do abandono e da rejeição, nomear afetos desconhecidos, deparar-se com os próprios fantasmas da infância e construir algo a partir daquilo que restou.

A cada avanço da história de Olga, nos deparamos com uma mulher desorganizada, imersa na dor e no desamparo, buscando não sucumbir ao abandono depois de ter dedicado tantos anos ao casamento. Ela tenta dar conta da rotina, da casa, dos filhos, do cachorro e se afoga em meio a tantos afazeres.

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E, apesar da densidade da história de Olga, do percurso difícil, dos inúmeros avanços e recuos, ela continua tentando de dar conta de si, tentando não se render completamente e atravessar as ruínas. Com muito custo, ela tenta impedir que as coisas não saiam dos trilhos, ainda que, em muitos momentos, seja uma tentativa em vão.

Mas é a partir do atravessamento da dor que uma mulher começa a surgir. Uma mulher que falha, que perde as palavras, que vive à beira de uma queda mas que encontra caminhos, que remenda a si mesma e que sobrevive às próprias angústias.

Em dias de abandono, tudo é intenso e real. Ferrante nos mostra o excesso, mas é justamente ao viver o ápice, ao transbordar que algo consegue ser construído e, pouco a pouco, transforma-se em chão firme para pisar.

Enxergo nesse livro reflexões sobre o que deixamos de nós quando perdemos algo que fazia parte de quem somos e sobre o quanto nossas relações compõem, de certa forma, aquilo que somos e aquilo que reconhecemos como nosso.

O fim de algo quase sempre é difícil. Exige e nos coloca para encarar dores desconhecidas, ao mesmo tempo em que pode nos fazer reencontrar fantasmas já esquecidos. Talvez seja justamente por isso que o fim também pode abrir espaço para outras coisas.

Há muitas coisas que podem nascer depois da dor. É sobre desmoronar e, ainda assim, abrigar o recomeço.